São oito horas da manhã, abro a janela e vejo um sol lindo, o céu aberto e sem nuvens. Acho que o dia será perfeito. Pego a bolsa e a chave do carro e sigo o meu caminho: primeiro dia de trabalho.
O emprego não era bem o que eu queria, mas o salário dava para manter as minhas manias, luxos, cigarros, sapatos, happy hours no fim de semana com as amigas. Enfim, era bonzinho!
Primeiro dia. Entrei na sala onde iria trabalhar, me concentrei no ambiente, tudo rústico, envelhecido, mas enfim, era de se esperar de um emprego bonzinho. Pó para todo lado. Estava me preparando para minha rinite atacar novamente. Mas o que mais me intrigou foi aquela figura alta, magra, sisuda, sem classe que me aguardava ansiosamente. Sua mesa ficava no canto da sala, tinha até alguns enfeites: símbolo da feminilidade. Mas no fundo não tinha nada de feminino, era conhecida como A CHEFA.
Depois de conhecer a figura e saber do sonoro nome pelo qual era chamada, tremi. Comecei a dar taquicardia e todas as palavras que tinha ensaiado para falar com ela em meu primeiro dia de trabalho sumiram de minha mente. Tive vontade de ir embora, virar hippie, abandonar os luxos.
Aquela figura me fez perder o chão. Incrível como algumas pessoas tem esse poder de nos tornar seres mais que indefesos. Mas apesar de tudo, segui o meu caminho: a sala da CHEFA.
Entrei e me apresentei, mostrei meu currículo e falei sobre meus conhecimentos e experiências profissionais. Ela não falava nada, nenhuma palavra, apenas me observava, olhava fixamente para minha boca, para as palavras que saíam dela. E eu, tremendo, vivendo o meu primeiro monólogo diante de uma mulher, porque com os homens isso já se tornou rotina, eles não dizem nada enquanto falo ou discuto.
A única reação percebida na CHEFA foi o arquear das sobrancelhas, aquilo me incomodou, o que significava? Estava gostando de mim? Me reprovando? Enfim, fui até o fim com meu monólogo e acho que fechei com chave de ouro, digna de aplausos.
De repente silêncio. A CHEFA pega um papel que estava em seu teclado com um bilhete deixado por mim, o meu primeiro bilhete para ela: anotação de uma ligação recebida alguns minutos antes dela chegar. Era um tal de Rudolf, do Ministério.
Ela fica de pé, e do silêncio fez-se esbravejos. Exatamente, ela começou a esbravejar, disse que aquele bilhete em cima do teclado era inadmissível, como alguém deixa um recado daquela maneira? Não era daquela forma que ela havia ensinado para o empregado anterior. E chamando de minha filha, ela me perguntou se eu tinha um caderno. Eu disse que
E naquele momento entendi o porquê do sonoro apelido: A CHEFA.
Saí da sala dela e segui o meu caminho: classificados do jornal do dia – à procura de outro emprego.
Girassol
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