Estava no ônibus, por volta das 22 h, quando entrou um homem, magro, por volta dos 31 anos de idade, vestindo uma blusa social amarela, uma calça caqui e calçando um sapato social. Carregava uma pasta marrom e tinha um ar que misturava preocupação e cansaço. Era bancário. Só podia ser bancário. Ele vestia uma roupa padrão, usava uma pasta padrão e tinha uma expressão padrão. Não tinha como ter outro ofício. Após passar a roleta e sentou-se na segunda cadeira da fileira da direita. Pensei: Por que um homem que trabalha com cédulas espera um ônibus às 22h? Deve ser um gerente de uma agência bancária. Um gerente sairia mais tarde da agência. Pensando bem, um gerente teria um carro. Será ... Antes que concluísse o meu pensamento observei que aquele bancário tinha algo diferente: uma mancha de batom vermelho na gola de sua camisa. Seria da namorada? Nunca imaginei um homem que trabalhasse em um banco namorando alguém que usasse um batom vermelho sangue, vermelho sedução, vermelho puta!
Não. A aliança dourada no dedo anular da mão esquerda excluiu essa hipótese. Como havia pensado, um ser com tamanha intimidade com a moeda nacional não namoraria alguém que usasse aquele batom. Certamente aquele batom era de uma amante.
Mas um bancário seria capaz de trair a sua esposa? Fiquei indagando qual seria a profissão dele... Ao chegar em casa, liguei o computador, e procurei imagens de pessoas que trabalhavam em bancos. Definitivamente aquele homem não era um bancário... Era um cafajeste.
Ana Karoline Crispim
21/07/09